30.11.17

RELIGIÃO PODE SER BOA PARA A SAÚDE MENTAL?



Vivemos uma época curiosa, na qual o avanço das ciências é visto como a derrocada das religiões. Nos ambientes acadêmicos, muitas pessoas creem que a religião, em função da sua fragilidade em tratar de temas próprios das ciências naturais, é algo a ser banido do mundo. O visível avanço tecnológico do mundo trouxe uma imensa credibilidade ao que se diz científico, mesmo ante os muitos problemas que trouxe ao mundo. Alguns cientistas famosos usam do prestígio que obtiveram em sua área de conhecimento para fazer uma espécie de ativismo contra as religiões, argumentando geralmente que as religiões são um mal para a humanidade e destacando alguns pontos realmente problemáticos.

As religiões e as instituições religiosas certamente têm seus problemas, mas em tempos de um “individualismo selvagem”, em que muitas pessoas não querem “abrir mão” de seus desejos pessoais, há um discurso que valoriza a espiritualidade e desvaloriza as religiões, a religiosidade e os grupos religiosos. Sempre achei que espiritualidade sem grupo religioso é como empada sem azeitona, porque a espiritualidade não é algo construído individualmente, mas aprendido ou desenvolvido coletivamente.

Estou lendo o livro “Religião, psicopatologia e saúde mental”, escrito por Dalgalarrondo, professor titular de psiquiatria da Unicamp. O livro foi publicado em 2008, mas a qualidade das revisões de literatura é muito boa, até a data.

São muitos os estudos que estudam a relação entre religião e saúde mental. Bergin (1993) não encontrou relação entre psicopatologia e religiosidade (metanálise de 24 estudos). Payne e colaboradores (1991) mostra que a religiosidade está associada a um menor uso de álcool e drogas e melhores medidas de bem estar psicológico, auto-estima, ajustamento familiar e social e menor permissividade sexual.

Koenig e Larson (2001) concluíram existir uma associação positiva entre saúde mental e religião (sujeitos mais religiosos são mais saudáveis e com menos transtornos mentais) e o impacto positivo da religião fica mais evidente em situações de envelhecimento, doenças físicas e perda de habilidades físicas e sociais. Koenig mostra que maior frequência à igreja (ou comunidade religiosa) está associado a uma menor prevalência de doença mental.

Kendler (1997). Muito elogiado por Dalgalarrondo, estudou 1698 pares de gêmeas e mostrou que a “devoção religiosa pessoal” protege as mulheres da depressão ante efeitos estressantes. Em um segundo estudo (2003) com 2616 gêmeos de ambos os sexos, ele mostrou que a religiosidade geral e outras categorias da religião estão associadas a menor prevalência de transtornos externalizantes (dependência de álcool e nicotina, abuso e dependência de drogas ilícitas e comportamento anti-social).

O autor também fala dos aspectos negativos da religião sobre a saúde mental, mas trataremos em outra matéria.

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