10.12.17

COM O CHICO NO CINEMA



Passei o final de semana com Chico Xavier. Não o Chico, espírito desencarnado, mas o Chico da mente de um autor espírita e mineiro.

Fiquei encarregado de falar sobre a vida de Chico Xavier no sábado, na reunião de encontro das mediúnicas, e me incumbi de concluir a leitura dos dois livros escritos por John Harley, espírita de Pedro Leopoldo que teve convivência direta e familiar com o médium.

“O voo da garça” e “Nas trilhas da garça”, publicados há pouco, são dois livros muito diferentes dos que já li sobre o Chico, porque John optou por uma narrativa culta, com palavras de fácil entendimento, que entremeiam a vivência dele, com a vivência de outros “amigos de Chico” e com a literatura disponível sobre a vida do orientando de Emmanuel. John nos deixa saber que ele tem uma trajetória pela psicologia, o que nos faz compreender por que ele busca o mesmo que nós: desconstruir a imagem de santo popular e entender a humanidade do Chico, coisa que o médium sempre prezou, até mesmo na escolha do seu pseudônimo.

As perguntas que ele se faz sobre o médium nunca têm respostas simples ou monocausais. Perguntas como: por que ele se mudou para Uberaba? São respondidas à luz de diversos eventos e opiniões de outros autores, que culminam em uma resposta sempre elaborada e complexa.

John não consegue ocultar a admiração que tem do médium, e nem precisa, já que sabemos bem “de onde vem” o texto, e para quem foi escrito. Admiração que não se confunde com ilusão porque ele percebe e deixa perceber o sofrimento do Chico com a sua idealização pelo público, o preço da fama (no caso, o sacrifício da intimidade), a invasão não desejada pelos seus admiradores, a luta com (ou contra) seus impulsos, as difíceis escolhas que ele fez pelo compromisso com a doutrina. Creio que ninguém vai querer ser Chico Xavier após ler os livros de Harley.



Hoje fui ao cinema com a minha filha que está de gesso no pé, mas se recuperando bem. Conseguimos uma cadeira de rodas no shopping, para que ela não tivesse que se deslocar de muletas e fomos assistir um cinema em família. A jovem na cadeira de rodas chamava a atenção das pessoas, que a olhavam com diversos estados de espírito, entre a dúvida e a piedade. As crianças não escondiam algum comentário com as mães, sempre generosos ou engraçados.

Ao fim do filme, uma das funcionárias do cinema nos atendeu com muita gentileza, facilitando a saída, informando sobre os espaços para cadeira de rodas e consolando minha filha, dizendo-lhe que em breve estaria andando novamente. Acolhemos com simpatia a generosidade dessa funcionária, que se sentiu respeitada e segura conosco. A conversa com minha filha foi até o ponto em que ela recomendou que aproveitasse o convívio com a mãe, que compunha o nosso trio, quando ela se emocionou. Ela nos disse que sua mãe havia ido há três meses, e que ela sentia muita saudade. Sabia que a mãe estava bem , mas nunca mais receberia um abraço dela.

Eu reagi como de costume, disse-lhe que ainda iria rever a mãe, mas ela não escutou.

Imediatamente, recordei a narrativa do John. Ele dizia que muitas pessoas levavam sua dor para o Chico e que uma vez ele ouviu uma mãe narrar a dor de perder a filha. O ímpeto dele foi de falar alguma coisa que normalmente dizemos, como “o tempo vai diminuir a sua dor”, ou “não fique triste”, ou ainda alguma frase daquelas que visam diminuir a manifestação de sofrimento, mas que expressam apenas a nossa incapacidade de entendê-lo ou nosso desejo oculto de afastá-lo de nós.

O Chico apenas abraçou e chorou. Chorou com a mãe. E o ato de perfeito entendimento, de empatia na dor, parece que tinha seu efeito mágico. O choro aliviava. Ela não estava mais sozinha em sua dor.

Quando me lembrei, quis abraçar também a funcionária, mas não seria conveniente. Entendi que o Chico não apenas fazia a coisa certa, mas criou o lugar certo e um momento socialmente aceito para que as dores pudessem ser repartidas. Eu entendi como era singelo e, ao mesmo tempo, grandioso, o trabalho que esse homem fez. Alguém com óculos diferentes dos meus, geralmente critica o que o Chico fazia, como assistencialismo ou sensacionalismo baratos. Geralmente são pessoas que enxergam o homem apenas com suas necessidades fisiológicas, de segurança e de conhecimento, visto como arte e cultura. Eles não estão errados, apenas são incapazes de compreender o que fazia o médium das Minas Gerais.

Agradeço ao John Harley ter compartilhado seu mundo íntimo. Nos dias de hoje, foi um ato de coragem.

5.12.17

MEU FILHO DEVE IR PARA A MOCIDADE ANTES DO TEMPO?


Esta história aconteceu há muito tempo, mas tem histórias que se repetem, nem sempre com o mesmo fim. Eu era um dos evangelizadores da turma com 11 e 12 anos, na Associação Espírita Célia Xavier. Era novo, não devia ter feito 18 anos ainda.

Um dia, uma mãe me procurou. Ela desejava que sua filha fosse para a mocidade (grupo de jovens, que começava com 13 anos), que ela era muito madura e inteligente e que aproveitaria melhor o outro grupo.

Quando se dividem turmas por idade, em um período tão marcante como a pré-adolescência e a adolescência, não se tem em vista a capacidade intelectual, especialmente em um centro espírita. Um ano de diferença parece uma eternidade para um adolescente. Fico vendo as filhas dos amigos dizendo que dois anos de diferença fazem com que se sintam deslocadas nas festas.

Outro problema, muito encontrado nas escolas, é quando chega um novo membro em uma turma já formada. Ele terá uma dificuldade a mais para se “enturmar”, porque os demais já se conhecem, já têm suas preferências e amizades estabelecidas, e pode ficar meio à parte, até que consiga amizades. Uma adolescente que conheço mudou de escola no 6º. ano. Tímida, levou dois anos para construir uma turma de amigos, daquelas que se relacionam além das salas de aula e dos trabalhos em grupo.

Na pré-adolescência as mudanças corporais são acentuadas. Minha esposa comentou que seus alunos entram ainda com corpo de menino/menina e saem com corpo de rapaz e moça, com algumas variações. Não são apenas mudanças físicas, mas também psicológicas, que se tornam um fator a mais no difícil processo de integração dos jovens.

Certa vez fui falar para um grupo de mocidades em um centro espírita de Belo Horizonte que tinha apenas 4 jovens no dia marcado. Dois tinham entre 13 e 14 anos e os outros dois na faixa dos 18 anos. Foi um dia difícil, porque os interesses eram imensamente divergentes.

Há também uma questão com os pais. Via de regra eles fazem tudo por seus filhos, e às vezes se projetam neles. Os filhos podem ser uma espécie de “segunda chance” de realização dos sonhos deles próprios, e passam a sofrer (isso mesmo!) as expectativas dos pais. Os pais os consideram mais inteligentes do que eles foram, e às vezes querem “corrigir” a educação que tiveram com os avós nos filhos. Podem, por exemplo, tratar de forma mais “democrática” seus filhos e costuma acontecer de exagerarem na mão e serem permissivos. Passam a ter dificuldade de dizer “não”, uma palavra tão necessária para a educação de um cidadão que vai viver em uma sociedade com direitos e deveres.

Outra questão envolve o próprio jovem. Passando as transformações da adolescência, ficam hipersensíveis e às vezes “donos da verdade”. Os pais não sabem muita coisa, aos olhos deles, porque vivem uma nova época. Paradoxalmente, já li sobre isso no Império Romano... Com tanto “poder” e expectativas, costumam ser frágeis, na verdade. Se ofendem ou magoam com situações que um adulto nem percebe. E a fuga pode ser uma forma inadequada de enfrentamento dos problemas.

Nesse caso, o pai percebe que o filho está incomodado, mas o filho lhe dá uma resposta socialmente aceita: “eu já sei tudo o que me ensinam, por isso não quero ir... “ E os pais menos atentos, acreditam, mesmo que os programas de curso sejam bastante diferentes e preocupados com a variação dos temas e das abordagens.

Há também uma questão meio narcísica. O pré-adolescente/adolescente quer parecer algo que ele ainda não é. Não se trata, portanto, de um conteúdo que ele já conhece, mas mostrar aos pais e aos colegas o quão especial ele é. Fica claro que isso é fantasioso, e não se atinge com uma mera mudança de turma. Ele vai continuar com esta “necessidade” íntima.

Retornando à história original, eu conversei com a mãe. Expliquei-lhe nas duas aulas que a filha participou, eu havia notado que ela era realmente especial, mas que o interesse e a ligação com o grupo não podiam ser esquecidos. Eu lhe expliquei que iríamos fazer um trabalho na turma de 11 e 12 anos para que eles se aproximassem, e pudessem ir, juntos, para a mocidade. Isso lhes daria mais segurança e satisfação.

A mãe ouviu e entendeu. A pré-adolescente participou conosco durante o ano todo, e no ano seguinte foi para a mocidade. Com o passar das décadas eu perdi o contato com eles, e me lembro vagamente das duas. Não sei se continuam no meio espírita, mas acho que foi uma experiência bem sucedida, e uma decisão acertada.

Eu mesmo tinha interesses diferenciados quando tinha 13 anos. Eu participava de minha turma de mocidade, o antigo 1º. Ciclo, e depois ficava para assistir os estudos do 3º. Ciclo. Conseguia acompanhar os estudos sem dificuldade, mas eram duas experiências diferentes, e agradeço muito o carinho e a compreensão dos meus amigos de idade mais avançada, porque era claramente imaturo perto deles.

Creio que a opção para os jovens que desejam aprender mais, é mantê-los nas turmas de sua idade e encaminhá-los para outros espaços das casas espíritas, para ver como se saem. Cursos de estudo sistemático do espiritismo, por exemplo, seriam uma boa opção. Outra boa opção é aproximá-los a equipes de tarefas, onde poderão aprender e fazer algo. A realização e a confiança obtida pelos demais, nessa idade, é muito motivadora e estruturadora.

Para terminar, há também um “lado negro”, no caso de nossa casa, porque a evangelização é sábado de manhã e a mocidade no sábado à tarde, então há pais que não querem levar seus filhos duas vezes ao dia no centro espírita, e temem que eles ainda sejam muito jovens para andar de ônibus sozinhos. Então para os pais seria mais cômodo levá-los uma vez só.

Como se pode ver, é um problema bem complexo, mas que envolve a vida das pessoas mais queridas por nós, então vale a pena sair da “zona de conforto”, pensar muito antes de colocar os filhos em uma turma de jovens de idade diferente.